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Quanto mais eu como mais fome eu sinto

Quanto mais eu como mais fome eu sinto

Resenha por Lorena Durans


Publicado por Giovanna Bernardes

foto sobre a letra da música “fome” por Djonga

“Quanto mais eu como, mais fome eu sinto” é o nome do novo álbum de Djonga, lançado às 18h13 do dia 13/03/2025. Gustavo Pereira Marques (Djonga), é responsável por mostrar que nem toda poesia é delicada, já que sua lírica é carregada pela poesia agressiva e precisa, repleta de mensagens e denúncias, tematizando a marginalização, racismo e identidade preta.Trazendo aqueles que sempre estiveram às margens pro centro, mostrando que o orgulho deve resistir. Tudo isso o faz, atualmente, uma das maiores vozes da cena do rap nacional.

Seu novo álbum aborda a fome para além da necessidade fisiológica, entrando no contexto da fome e se desdobrando dentro de diversos vieses. Assim como a comida alimenta, sacia, a arte, a cultura, a espiritualidade e as conquistas também o fazem. Assim como a comida é essencial à vida, a arte, a cultura, a espiritualidade e as conquistas também são.

“FOME” é o nome da primeira das faixas. No contexto exposto, a fome simboliza uma metáfora que manifesta a necessidade de conquista, busca e mudança. Em sua trajetória a fome já foi representada como sobrevivência biológica, mas hoje retrata a necessidade incontrolável de conquistar e crescer. “Já fiz pra alimentar nossas bocas. Hoje eu faço pra alimentar minha alma e meu espírito. É que eu ainda tenho fome, mano… Juro que ainda tenho fome, mano”.

Nos seus versos, Djonga também se refere a sua ancestralidade e espiritualidade, citando Exu:“Exu era o filho caçula de Iemanjá e Orunmilá. Irmão de Ogum, Xangô e Oxóssi. Exu comia de tudo, sua fome era incontrolável. Comeu todos os animais da aldeia em que vivia. Comeu os de quatro pés, comeu os de pena. Comeu o cereal, a fruta, o inhame, a pimenta; Bebeu toda cerveja, toda cachaça, todo o vinho. Ingeriu todo o azeite-de-dendê e todos os obis. Quanto mais comia, mais fome Exu sentia”.

O culto ao Orixá, prática do candomblé (religião afro-brasileira), sempre foi alvo de intolerância religiosa, e muitas vezes o Deus cristão foi usado em nome do ódio, como justificativa para a intolerância, frequentemente violenta, e não do amor. Assim, a religião de Djonga é, também, uma forma de resistir. Exu é o ciclo que caracteriza início, meio e fim. Ele quem brinca com tempo e faz dos finais, os recomeços. É o mensageiro e o protetor: “Dá o passo que Exú dá o caminho”. Conhecido pela sua fome insaciável e abertura de caminhos, Exu e sua fome são transmitidas na música pelos anseios de Djonga.

“Tem hora que é.. falta espaço pro tanto de coisa que eu quero. A fome ela vem de lugares diferentes na minha vida de um modo geral, então em algum momento, a fome é aquela parada da.. daquele luxo que você quer ter… aí depois a fome é da roupa.. depois vai pra algo mais espiritual, de conhecimento, de pra onde eu quero ir… e eu acho que hoje em dia a fome maior que eu tenho é de entender mesmo o porque eu tenho tanta fome, entendeu. É o que eu falo no disco né, sou movido a dúvidas e não a respostas”.”-Djonga.

Logo, o que Gustavo busca transmitir na canção – por meio de vários desdobramentos- é a necessidade. Necessidade de se alimentar do que a comida não consegue nutrir. De percorrer novos caminhos, de conquistar.

Do que você sente fome?

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