Artigo de opinião por Marina Contaifer
Revisado por Isadora Farias
Publicado por Luisa Becattini Coutinho
Você já imaginou acordar um dia com seus direitos humanos tomados? De repente, ser proibida de sair de casa desacompanhada, ir à escola, ao trabalho, à academia, a clubes e a qualquer outro resquício de vida pública? Acordar em uma realidade onde mulheres e meninas se tornam ainda mais vulneráveis a abusos, casamentos forçados e violações de seus direitos?
É isso que as mulheres afegãs enfrentam desde que o grupo Talibã voltou ao poder no Afeganistão.
Para compreender a atual crise humanitária enfrentada pelas afegãs, é preciso, antes, compreender quem são e de onde vieram os Talibãs, que atualmente regem o país.
O Afeganistão é apelidado por muitos historiadores de “cemitério de impérios”, devido ao grande número de impérios que já tentaram controlá-lo. Por estar localizado em uma posição estratégica entre o Oriente Médio, a Ásia Central e o Sul da Ásia, favorecendo importantes rotas comerciais, como a Rota da Seda. Por essa razão, o território atraiu o interesse de diversos impérios que buscavam controlar a região.
Em 1978, o país já se reconhecia como república e, nesse ano, ocorreu a Revolução de Saur, quando os comunistas do Partido Democrático do Povo do Afeganistão assumem o governo. Em 1979, a União Soviética invade o país em apoio ao governo comunista. Durante esse período, os Estados Unidos realizaram a Operação Ciclone, um programa secreto de apoio aos mujahidin, grupo guerrilheiro afegão, por meio do fornecimento de armas e treinamento militar. Após a retirada soviética, em 1989, o governo comunista permanece no poder por mais alguns anos, mas cai em 1992, quando diferentes facções dos mujahidin passam a disputar o poder. Nesse período, o país enfrenta uma violenta guerra civil. É com a proposta de restaurar a ordem no Afeganistão pós-guerra que surge o Talibã, em 1994.
O termo “Talibã”, na língua pachto, significa “estudantes”. Esse grupo era formado por jovens alunos das madrasas, escolas religiosas para garotos, nas quais o islamismo e a Sharia eram ensinados de forma severamente conservadora. De acordo com a escritora e jornalista Adriana Carranca, o principal líder talibã não era alfabetizado, o que sugere as limitações educacionais presentes em parte da formação recebida por integrantes do grupo.
Em 1996, o Talibã conquistou a capital, Cabul, e assassinou de forma violenta o então presidente do país, Mohammad Najibullah, e seu irmão, Shahpur Ahmadzai. A partir daí, o que era apenas uma milícia armada se tornou um governo, e a Sharia passou a funcionar como a “constituição” oficial, fazendo com que as regras de Deus se tornassem regras civis em todo o país.
O governo passou a destruir artefatos arqueológicos, queimar livros e demolir estátuas. Cerca de 55 mil livros foram queimados na biblioteca mais importante do país. Esses atos comprometeram a preservação da história do Afeganistão, que era conhecido por ser um rico sítio arqueológico.
Entre o povo atingido pelo regime, as mulheres se destacaram pelas numerosas restrições. Sob o poder talibã, tornou-se estritamente proibida a presença de mulheres nas escolas, universidades e no mercado de trabalho. Segundo a interpretação defendida pelo Talibã, o papel da mulher deveria restringir-se a procriação, casar-se e cuidar da casa. Além de tirar a oportunidade de milhares de garotas que já haviam ingressado nos estudos e foram impedidas de continuar, cerca de um quarto dos cargos civis, como os da área da saúde, por exemplo, eram ocupados por mulheres, causando prejuízos à população como um todo.
Em 2001, os Estados Unidos acusaram o Talibã de abrigar o terrorista Osama bin Laden e, como consequência, enviaram tropas ao país, retirando o grupo do poder. Nos vinte anos seguintes, o Afeganistão passou a ser governado pela República Islâmica do Afeganistão e, nesse período, muitas mulheres voltaram, gradativamente, a estudar, trabalhar e participar da vida social e política. Até que, em 2021, após a retirada das tropas norte-americanas do território afegão, o Talibã voltou a liderar a nação.
Com a volta do grupo ao poder, muitos afegãos tentaram deixar o país, afirmando que seria impossível viver plenamente sob as medidas do regime. O desespero diante da situação tornou-se evidente nas cenas registradas no aeroporto de Cabul, onde algumas pessoas chegaram a se agarrar a aeronaves na tentativa de fugir do Afeganistão.
Atualmente, o Afeganistão é regido por medidas drásticas de conservadorismo que negam os direitos humanos e representam um retrocesso às conquistas ativistas e feministas das últimas décadas.
O casamento infantil foi autorizado. Crianças de nove anos podem legalmente se casar contra suas vontades, e o silêncio dessas meninas no altar é sinônimo de consentimento. Para Adriana Carranca, isso representa a legalização do estupro infantil.
Além disso, as mulheres são objetificadas de maneira cruel, sendo reconhecidas como moeda de troca e transformadas em mercadorias.
Essas mulheres são totalmente privadas de qualquer tipo de lazer e de vida pública que não seja acompanhado por seus respectivos maridos. Nesse cenário, muitas passaram a se casar contra suas vontades para se proteger das crueldades do governo.
O uso da burca é imposto, o medo é instaurado e os direitos são negados. O que se observa no Afeganistão nos últimos anos é um atentado às mulheres e a todos os cidadãos que têm diariamente suas liberdades e seus direitos violados. Como afirmou a atriz Meryl Streep em um apelo à Organização das Nações Unidas, “um esquilo tem mais direitos do que uma menina no Afeganistão hoje”.
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